Vírus Do Espaço Sideral

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Vírus do Espaço Sideral

A Queda

No longínquo horizonte dos céus, um objeto traçava a escuridão da noite com uma cauda luminosa em queda livre diretamente para a Terra. E numa área de mata fechada na cidade de Paulínia – SP, a queda aconteceu.

Paula, uma garota de aproximadamente 35 anos de idade, surgiu desesperada correndo do meio das árvores onde o objeto espacial havia caído. Um grande saco preto em suas mãos escondia algo que encontrou no local da queda.

Algo como um sangue verde escorria por entre suas mãos. Após um tropeço que causou uma queda, ele se levantou e continuou até chegar no seu carro. Entrou e sem perder tempo começou a tentar dar partida para ir embora dali, mas seu carro nunca funcionava de primeira.

Sorrateiramente um vulto levantou do banco traseiro de seu carro. Era um estranho homem vestido de preto que se escondia nas sombras, e que não pôde ser visto com detalhes devido a seu grande chapéu. Em poucos segundos, o susto no retrovisor fez Everton olhar para trás. Mas já era tarde. Em um rápido movimento o homem de preto sacou seu revólver e matou Everton com um certeiro tiro na cabeça. Sangue e miolos se espalharam pelos vidros do carro.

A compra

Era meia noite. Carlos estava ansioso. Havia combinado a compra de algo com um misterioso homem que encontrou na deep web. Codinome “Sr K”. Seu carro chegou numa ponte de ferro há muito tempo esquecida que cruzava um grande rio. Parou seu carro no começo da ponte com os faróis ligados, única luz que havia ali.

Em seguida, do outro lado, mais um carro chegou e também parou do outro lado da ponte. Era o “Sr K”, o homem de preto com seu clássico chapéu que começou a se dirigir até o meio da ponte com uma grande maleta.

Carlos também foi até o meio com um pesado pacote cheio de dinheiro. Ao se encontrarem no centro, Carlos pediu para ver se o que havia na maleta era o combinado.

– Posso verificar a maleta? – perguntou Carlos muito ansioso.

O homem de preto apenas consentiu com um movimento da cabeça que dizia sim.

Carlos abriu a maleta. Uma densa fumaça em uma forte luz verde percorreu seus pés que tremiam as antigas chapas da ponte a cada movimento que fazia.

– Esplêndido. – balbuciou Carlos.

Entregou o pacote de dinheiro e ambos foram embora.

O vírus

Era uma noite fria e úmida. Carlos acabara de chegar para a troca de turno de seu trabalho no Necrotério Álvares Spoletta, que iria das 20h00 daquela noite até 08h00 da próxima manhã. 

Robert, seu colega de trabalho, agora com uma expressão de alívio por ter terminado seu turno, transmitiu a informação para seu colega de que um corpo acabara de chegar:

– Carlos, acabou de chegar um corpo fresco para o trabalho. Tenta adiantar isso pois pela manhã haverá cobrança da polícia civil. 

Carlos acenou friamente com a cabeça e deixou que escapasse um leve sorriso. Ansioso, foi entrando com entusiasmo. Consigo havia uma maleta, aparentemente metálica e relativamente grande. 

Robert sempre desconfiou de que algo em seu colega não era natural, e naquela noite seu sentido dizia que algo não estava certo. Por que Carlos estava ansioso pelo trabalho da madrugada com uma maleta estranha daquela? Sempre chegou cansado e desanimado. Decidiu que iria investigar aquilo mais de perto.

Enquanto Carlos colocava seu jaleco branco e preparava-se para entrar na sala número cinco, ou sala das gavetas, que era como chamavam o local de necrópsia entre os colegas de profissão, Robert seguia silenciosamente entre os ambientes para observar por entre os vidros.

A sala ao lado da necropsia possuía uma antessala, própria para observações de médicos residentes, estudantes de medicina, policiais, profissionais da área e até para que os chefes pudessem verificar se o trabalho estava sendo bem feito. Era ali que Robert observaria os acontecimentos daquela noite. 

Carlos já havia entrado com sua maleta. Posicionou-a sobre uma cadeira e foi observar os prontuários para descobrir em qual a gaveta estava o recém-chegado cadáver. Gaveta número um. Bateu as mãos esfregando-as em tom de ansiedade e dirigiu-se até a maleta. Foi até lá e abriu-a deixando o cadáver ali exposto.

Retirou-a então da cadeira e a posicionou em cima da mesa de costas para a pequena janela da qual Robert observava. Primeiro a tampa da maleta foi aberta. Em seguida Carlos começava a ajustar algo ali dentro. Um minuto depois uma forte luz verde e uma fumaça começava a emanar de dentro. 

Robert ainda não conseguia ver qual era o conteúdo, e sua curiosidade só aumentava. 

Carlos então foi até uma mesa próxima e pegou uma grande seringa. Voltou até a maleta e a preencheu com um tipo de soro verde que estava dentro. 

Olhou para o cadáver e foi até ele. Respirou fundo como se estivesse torcendo para algo dar certo, e aí injetou aquele líquido verde e quase fluorescente no braço do inanimado corpo. 

Parou e ficou imóvel por mais um minuto. Agora estava aflito, preocupado, mas aguardava.

Robert percebeu que o olhar de Carlos estava fixo para o cadáver, então também deixou toda a sua atenção para observar atentamente aquele corpo, mesmo que a maleta fosse alvo de sua maior curiosidade.

Após um minuto com os olhares fixos, algo inacreditável começava a acontecer. Os dedos daquele corpo, antes sem vida, agora estavam se mexendo. Logo os pés começavam a fazer pequenos movimentos, e de súbito o corpo agora estava ereto sentado naquela gaveta. 

Carlos começava a vibrar e gargalhar muito alto, feliz com o resultado que talvez fosse o que esperasse e assim continuava enquanto o corpo fazia alguns movimentos. Mais um minuto se passou e como um reflexo o corpo saltou daquela gaveta e começou a gritar. Era um grito de dor, de agonia. Sem nexo ou padrões, o corpo correu desnorteado até que se jogou contra uma parede e caiu novamente imóvel no chão. 

Parecia morto. Carlos agora mudando sua expressão para uma decepção muito grande, gritava:

– Não, não, nãooooo!

Enquanto o corpo agora estava jogado no chão, Carlos cabisbaixo começou a caminhar para a porta de entrada daquela sala. Robert em desespero se escondeu numa parte escura para que seu colega de profissão não o visse. 

Parecia que Carlos estava indo até o banheiro, em outra ala e passou reto. 

Robert, apesar de sua cara de desespero e choque, ainda estava curioso para saber o que estava dentro da maleta. Era só uma olhada rápida e ele voltava a se esconder rapidamente. E foi isso que fez. 

Silenciosamente, na ponta dos pés, Robert caminhou para dentro da sala, que já estava com a porta aberta deixada por Carlos. Chegou até a maleta e olhou para o conteúdo. Sua expressão de choque aumentara ainda mais. Era um vidro com o que parecia um feto alienígena dentro envolto por um líquido verde fluorescente. Inacreditável mais uma vez. 

Talvez seu choque tivesse sido tão grande que não percebeu que agora Carlos estava bem atrás dele, e antes que pudesse perceber foi golpeado fortemente na cabeça. Desmaiou. 

Com uma visão turva enquanto acordava, e tentando recobrar sua consciência, Robert percebeu que agora estava deitado e amarrado a uma mesa. Carlos ao perceber que havia acordado começou uma rápida conversa:

– Ah Robert meu caro colega, não era pra você estar aqui. Mas você está e não pode contar isso a ninguém. Mas já sei, injetarei esta solução em seu corpo vivo para poder avaliar o efeito que isso causará em você.

– Carlos, porque está fazendo isso? Por favor não faça isso. 

– Robert, imagine que com isto eu possa descobrir a cura para a morte? Se você não sobreviver, pense, que isto não será em vão. 

Enquanto Robert implorava por sua vida, Carlos preparava uma nova solução naquela grande seringa. 

De repente as luzes do ambiente começaram a piscar e algo brilhante começara a se projetar em algumas janelas externas que haviam ali. Uma luz muito forte. Objetos ao redor da sala começaram a tremer. Então veio a luz. Branca e nada mais. Agora o silêncio. Carlos, Robert, o corpo caído no chão e a maleta haviam desaparecido.

O homem de preto

Em algum lugar, longe dali, Sr K observava os acontecimentos do necrotério através de uma câmera escondida. Parece que tudo estava saindo conforme o planejado. Fumando seu charuto e observando a TV, jogou o restante de seu fumo no cinzeiro, soltando a última fumaça de sua boca, apagando a ponta fumegante do tabaco, depois se levantou e foi embora.

Autor: Rene Sarli
Revisão e tradução: João Lopes


Assista também ao trailer do curta metragem baseado no conto “Vírus Do Espaço Sideral”.

rene

Profissional na área de TI sempre tive como hobby escrever contos.

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