Livro dos Mortos – De volta ao inferno

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Fausto e Elias eram irmãos unidos e alegres com a vida que tinham. Um fato que marcava a presença deles onde quer que fossem era o de serem praticantes de magia negra. Divertidos e extrovertidos por si próprios eles acabavam sendo forçadamente aceitos entre os colegas de escola por irradiarem alegria, mas ainda assim, no fundo, cada um de seus colegas sentia certo medo e angústia por estarem ao lado de praticantes de magia negra.

Era inverno, mas naquela manhã o clima estava com uma temperatura ambiente muito gostosa, com uma brisa refrescante, e fortes raios de sol brilhando na copa das árvores. Fausto e Elias resolveram depois das aulas ir até uma papelaria comprar alguns materiais para confeccionarem pipas, ideia de Fausto, que sempre gostou deste tipo de atividade. No caminho Fausto resolveu parar por alguns instantes para amarrar seu tênis All Star, e Elias, agora afobado por querer chegar logo à loja resolveu não esperar seu irmão e ir adiantando as compras na frente dele.

Um pouco à frente…

Um indivíduo escondido dentro de uma construção abandonada estava agoniando por seus últimos estoques de droga terem acabado. Aflito resolveu dar uma olhada colocando sua cabeça para fora do portão velho e semiaberto da construção, e cercada por paredes de dois metros de altura. A primeira coisa que viu foi Elias passando pela frente do portão. Sem pensar duas vezes o meliante puxou-o para dentro com toda força e velocidade que pôde. Fausto, ao erguer a cabeça para se levantar, conseguiu ver apenas um resquício dos pés de Elias sumindo para dentro da construção. Assustado, levantou e correu o mais rápido que conseguiu para aquela direção. A poucos metros dali o indivíduo desconhecido passou pelo portão saindo da construção e correu com muita velocidade depois de olhar para Fausto com um olhar desesperado e fugitivo. Seu coração disparou, e ao primeiro olhar por entre a brecha do portão já conseguia ver aquilo que mudaria sua vida para sempre. Elias estava caído ao chão com uma faca ainda cravada a seu peito e soltando palavras indecifráveis. Fausto, já com duas lágrimas fugindo de seu rosto, agachou-se ao lado do corpo estirado de seu irmão dizendo:

– Aguente meu irmão. Chamarei a ambulância e você ficará bem.

Pegando seu telefone celular começou a discar. Mas antes que o primeiro toque da chamada pudesse ser escutado, Elias responde:

– Irmão, não quero morrer. Não posso morrer. Me ajude.

– Aguente Elias, não deixarei você morrer eu prometo…..Elias? Elias? Acorde….. Não!!!

Gélido e sem respiração alguma Elias havia pronunciado suas últimas palavras. Fausto ao escutar no telefone as palavras da atendente não disse nada. Apenas desligou.

Fausto não precisou pensar duas vezes. Saiu correndo desordenadamente, depois de fechar o portão, para sua casa, e de lá trouxe um livro negro que eles haviam comprado de um antigo bruxo que dizia ter escrito aquele livro em pele humana com sangue humano. Em palavras estranhas que apenas poucos conheciam estava escrito como título: Livro dos Mortos.

Livro dos Mortos

Fausto abriu o livro exatamente na página que ele queria, pois conhecia aquele livro inteiro, cada página e magia contido nele.

A magia que precisava naquele momento: Ressurreição de mortos. Fausto não estava muito certo de seus resultados, mas como última promessa ao irmão precisava trazê-lo de volta à vida. Junto com o livro, Fausto trouxe também uma mochila e uma pá. Colocou tudo no chão perto do corpo de seu irmão, tirou a camisa e começou a cavar. Depois de algumas horas, tarde da noite, a cova estava pronta. Sem descansar ele foi até a mochila e retirou alguns minúsculos sacos plásticos com vários tipos de combinações de ingredientes. A última adição de sua poção foi um botão de rosa vermelha. Arrancou as pétalas e adicionou à bebida. Em seguida desprendeu espinho por espinho do caule da planta e os jogou como último ingrediente mexendo então com o caule da rosa, agora sem espinhos.

Fausto foi até o corpo de seu irmão e virou aquele líquido todo na boca de Elias forçando os espinhos da rosa a descerem por sua garganta junto ao líquido. Em seguida, arrastou seu irmão até a cova que havia acabado de preparar e o enterrou. Aquela era uma magia muito poderosa e perigosa e Fausto sabia disso. Sabia também que não tinha todo o conhecimento e preparação necessária para aquele ritual, mas mesmo assim ele precisava fazê-lo.

Ajoelhou-se perante a cova de seu irmão, e entoando cânticos de uma estranha língua invocou o poder dos mortos. Uma forte tempestade caiu na cidade aquela madrugada.

Fausto acordou deitado em barro alguns metros de onde seu irmão estava enterrado. Mas nada havia mudado, e um forte aperto no coração de Fausto fez com que lágrimas percorressem seu rosto em grande quantidade, pois ele havia falhado. Os primeiros raios de sol já estavam expostos, mas de alguma maneira o céu escureceu levemente dando a impressão de que se aproximava uma nova tempestade.

Ele olhou fixamente para a cova de seu irmão e percebeu um leve abalo sob a terra ali no sepulcro de seu irmão. Fausto pegou e pá e começou a cavar. Elias estava vivo. Fausto gritou duas palavras:

– Deu certo!!!!

Ao cair a terra lentamente da cara de seu irmão, Fausto percebeu que algo estava diferente. Elias, tossindo, cuspiu alguns espinhos de rosa envoltos por gotas de sangue, e soltou um grande sussurro:

– Ahhhh que dor. Me ajuda irmão. Meus braços…..

Horrorizado Fausto percebeu que seu ritual não havia funcionado como imaginava. Os braços de Elias haviam apodrecido e caíram em seu primeiro movimento.

Ele ainda estava sentado na cova e em sua primeira tentativa de mover sua perna direita ela se desprendeu, soltando junto um grito de dor. Sua agonia estava aumentando, e já não conseguia mais falar palavra alguma, apenas gemidos de muita dor e agonia eram expressos por sua voz. Seu rosto em poucos minutos ficava cada vez mais branco e Fausto começava a entrar em estado de choque. Desesperado e sem saber o que fazer seu último ato foi levantar-se, ainda em estado de choque e com um golpe certeiro com a pá ainda cheia de lama decepou a cabeça de Elias. Fausto havia cumprido sua promessa, mas sua culpa agora era maior ainda.

Alguns dias passaram-se….

A central de polícia da cidade recebeu uma ligação de uma denúncia anônima para investigar um forte mal cheiro vindo de uma construção abandonada. A polícia chegou ao local e além de Elias encontrou também em uma viga da construção Fausto pendurado pelo pescoço por um fio de energia elétrica. No dia seguinte era estampado na capa do principal jornal da cidade estava: Ritual de bruxaria acaba em morte. No corpo da mensagem ainda dizia: “Autoridades ainda acreditam que possa ter sido a prática de um jogo de rpg, onde jovens fingem ser personagens fictícios e acabam matando uns aos outros cometendo atos homicidas e suicidas.”

FIM

rene

Profissional na área de TI sempre tive como hobby escrever contos.

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