A Vingança

A prisão era como uma manhã fria, monótona e perigosa eternamente. As favelas em que cresci é o melhor exemplo da agonia diária, onde cada dia parecia ser o último quando um intruso resolvesse invadir sua casa e estourar seus miolos. Uma bala perdida. Fria e certeira. Mortal.

Num mundo injusto onde a justiça cedo ou tarde não prevalece, o vigor da vida acaba desaparecendo, dando espaço para a sede de vingança.

Fiquei preso durante seis anos, e fui libertado por bom comportamento antes de minha pena de treze.
Passo a mão em minha barba mal feita na dúvida do que faria primeiro, e sinto a cicatriz de minha garganta saltada de ansiedade, onde uma navalha quase tirou minha vida numa briga entre detentos e policiais, no qual acabei sendo refém de meus próprios companheiros, se assim posso chamá-los.

Culpado de um crime que não cometi minha vida agora dedicaria a um trabalho minucioso de vingança. Vingança. Vingança. Passei cada hora eterna de minha cela pensando como fazer. Em como planejar. Em como executar.

Ao pisar do lado de fora dos grandes postões de ferro marcados de ferrugem, uma nova vida estava para começar. Pensaria mais e mais à partir daquele momento.

Caminhando sem rumo através da beira de estrada, alguns carros passavam por mim sérios sem que seus passageiros arriscassem olhar para o lado, já outros passavam rindo e atirando objetos como latas zombando de um ex-detento. Não merecia aquilo, mas de qualquer forma faria por merecer em breve.

Havia andado talvez uns quinze quilômetros, e a sensação de liberdade me incentivava a andar mais uns cinquenta antes de parar, mas meus pés já não eram tão acostumados a uma jornada destas. Comecei a desacelerar procurando um local onde pudesse parar por alguns instantes, mas não pude fazê-lo. Um grande caminhão vermelho fosco, velho e sujo parou à minha frente.

Um senhor que o dirigia colocou sua cabeça para fora e dirigiu-me a palavra:

  • Por acaso gostaria de uma carona?
    Indagou aquele senhor com um olhar certo de que sabia ser eu um ex-detento que acabara de ser libertado.
  • Claro.
    Fui subindo e acomodando-me naquele velho banco de couro sujo e logo estávamos na estrada novamente.
    Nenhuma conversa foi iniciada durante toda a viagem. Aproveitei para descansar e aproveitar minha nova vida.

Enquanto a viagem perdurava por horas, meus pensamentos passavam como foguetes em minha mente. Me lembrara de minha querida Rosa, e nossa amada filha Clara quando elas ainda eram vivas e o grande acontecimento trágico em que tudo mudou.

Certo dia fui premiado com dinheiro em meu trabalho por um serviço de destaque. Nãe era nada demais, mas tive sorte, o que mais tarde para mim seria uma maldição. Devido a este prêmio fui dispensado duas horas antes para que eu pudesse comemorar. Apressei-me em ir até a escola de minha filha e pegá-la mais cedo para fazer uma surpresa a Rosa e irmos comemorar.

Lembro-me até hoje do brilho nos olhos de Clara de felicidade por sair mais cedo, e em sequência saber que sairíamos para jantar.

Era para ser uma surpresa, mas algo não estava certo. Ao chegar em casa um sedã verde escuro bloqueava a entrada para a garagem, o que poderia me tirar do sério em outras oportunidades, mas não naquele dia. Estacionei meu carro logo à frente e com Clara em meus braços fui logo entrando em casa em silêncio para verificar se estava tudo em ordem, e também para fazer a surpresa.

Ao abrir a porta da sala podia ouvir sussuros vindos do quarto. Apressei-me até lá com medo de que algo pudesse estar acontecendo.

Aprimei da porta que estava apenas encostada, e ao abrí-la uma grande surpresa. Ela estava com outro homem nua na cama, e aí minha vida virou o inferno de hoje.

Charlie, o nome do homem de cerca de 32 anos, o qual soubera apenas dias mais tarde, estava de costas para a porta, e ao ver Clara paralisada com seu olhar em direção a mim exitou por alguns instantes e pulou para o chão agarrando antes sua jaqueta marrom escuro que estava em cima do criado mudo. Em um movimento que durara cerca de 10 segundos ele puchou um revólver e disparou contra mim. Clara foi minha proteção. Estava em meus braços e morreu com um tiro nas costas. Rosa gritou desesperadamente pulando em cima de Charlie, que lhe deu um tiro à queima roupa.

O tiro de Clara atravessou seu peito e atingiu o meu de modo que não havia perigo de morte para mim, mas elas….estavam mortas, e o desgraçado havia fugido.

Ele havia jogado a arma no chão antes de fugir nu pela rua até seu carro. Levantei-me e em um ato de raiva e a peguei. O segui correndo atrás dele. Mas seu carro já havia partido. O grande problema é que a polícia acabara de chegar. Haviam me prendido em flagrante pelo assassinato de minha mulher e filha. Nem ao menos me escutaram. Minha história havia se tornado lenda, além de que algumas testemunhas corroboravam afirmando de que não haviam visto ninguém desconhecido entrando ou sainda de casa.

Durante todos os anos na prisão, iniciei um investigação pessoal, pois queria descobrir o nome do desgraçado que acabou com minha vida e família. Mas informação dentro de um presídio é algo muito caro e difícil de se conseguir. Pagando com dinheiro, cigarro, drogas e até mesmo minha própria bunda consegui descobrir através de amigas de minha ex-mulher o nome de quem havia me passado para trás. Ele pagaria.

Sem me dar conta, havia lembrado de que não disse para onde iria, nem o velho caminhoneiro me perguntado. Onde estaria me levando?

  • Com licença senhor. Desculpe mas para onde estamos indo?
    Perguntei educadamente.
  • Buscar sua vingança.
    Respondeu bruscamente o velho.

Olhei aturdido como se não houvesse entendido o que ele havia dito e retruquei:

  • Do que está falando? Quem é você?
  • Acalme-se. Você me agradecerá quando lhe mostrar o que tenho.
    Falou com calma dirigindo seu olhar direto para mim.
  • Tudo bem. Não tenho para onde ir mesmo. Gastei todo meu dinheiro na prisão em busca de informações. Hoje não tenho mais nada a não ser este velho tênis e estas roupas de meu corpo. Veremos o que poderia ter que me importasse.

Mas o que ele me mostraria era algo valioso. Muito valioso. Escureceu e adormeci.

Era manhã. O solavanco do caminhão andando sobre uma estrada sinuosa de terra e pedras nos levava por um caminho no mínimo estranho. O velho estava me levando para algum lugar distante, e isto só podia significar um segredo muito grande. Apenas aguardei.

Alguns kilômetros e começamos a subir uma montanha na qual havia uma grande casa de madeira numa clareira de árvores.

Descemos do caminhão, mas antes que entrássemos ele me parou e se apresentou:

  • Meu nome é Carlos. Sei de sua história e de sua inoscência mas preciso que confie em mim. Pegue esta arma.

Me entregou um pequeno revolver carregado o qual logo guardei em minha calça preso ao corpo.

  • Deça aquelas escadas até chegar no porão. Lá você terá sua vingança.

Desci as escadas e parei em frente à uma porta de madeira trancada com uma grande barra de ferro, que poderia ser aberta apenas pelo lado de fora. Antes de abrí-la concentrei minhas forças e tentei me livrar do fio na barriga que me tomava conta. Abri-a. A cena que se seguiu seria a segunda imagem que nunca mais sairia de meus pensamentos. Charlie estava ali. Acorrentado a um grande pilar de madeira com as mãos para cima. Estava claramente desnutrido e sem forças, o que acabara de me dar mais prazer em vê-lo assim.

  • Você……meu pai…. meu pai não pode ter me entregue desta maneira. Que pai é este que eu tenho. Paiiiii. Me vingarei de voc……

Mas antes que ele pudesse terminar suas últimas palavras comecei a esmurrar sua cara com uma alegria sinistra que tomava conta de meu coração. Ele não aguentou por muito tempo o espancamento, mas pude sentir seus ossos do rosto esfarelarem no encontro com os ossos de minhas mãos. A cada soco recebido nos rins e pulmões um tanto de sangue era cuspido por ele, e a cada cuspida podia sentir seus últimos lamentos preso entre os dentes que havia engoligo e os outros que ainda se afrouxavam na boca. Era minha vingança. Não precisava daquela arma que o pai de Charlie havia me dado. Minha vingança havia sido feita.

Ao sair da casa, o velho ainda me esperava encostado ao caminhão com um saco plástico preto em suas mãos.

  • Rapaz, no dia da morte de sua mãe e filha, Charlie veio correndo pedir minha ajuda, mas não pude sequer dizer alguma palavra. Acertei-o com força na cabeça e desde então o mantive preso aqui tentando fazê-lo confessar o crime para as autoridades. Não me escutou. Eu podia tê-lo entregue à polícia mas achei que você o preferisse assim do que na prisão.
  • Claro, agradeço por tudo, mas agora não sei mas o que farei de minha vida. Não tenho mais nada.
  • Não se preocupe. Pegue isto aqui.
    Entregou-o o saco plástico.
  • Aqui está todo o dinheiro que o Charlie possuia no banco e em bens. Use-o para reconstruir sua vida.

Desde então abri meu próprio negócio, mas minha vida nunca mais foi a mesma. A liberdade não tinha mais o gosto de liberdade. A vida não era mais vida para mim. Mas o mundo continua…

FIM

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