A Sala Branca – Parte 1

A central de comunicações da polícia recebeu um chamado dizendo haverem corpos jogados por uma vasta área rural. Ao chegarem no local uma carta é encontrada à alguns metros das primeiras gotas de sangue. Nela dizia:

Acordei assustado de um pesadelo. Estava numa sala com pouca iluminação e algumas pessoas comigo, acho que umas cinco. As paredes eram brancas e brilhantes, feitas de pequenos azulejos quadrados e lisos e não havia janelas ou portas. Então como fomos parar ali? Ninguém se conhecia, então não sabiam se tinham medo um do outro, medo de onde estavam ou do que poderia vir a acontecer. Enquanto tentávamos raciocinar, ou lembrar como chegamos aqui, a pouca luz que restava cessou-se até a escuridão total, voltando em poucos segundos ao mesmo ambiente.

 

Todos estavam assustados, encolhidos no centro da sala, e recuando com certo desespero de um dos cantos daquele pequeno cubículo. Fui também. Foi quando senti a presença de mais alguém ali, aliás, todos sentimos, antes de vermos com nossos próprios olhos. Um homem, ou seja lá o que era, estava num canto oposto ao nosso, parado, nos observando por debaixo de seu sobretudo e capuz preto. Seus olhos brilhavam naquela escuridão e mostrava-nos que estava observando. O silêncio e o desespero das pessoas eram totais, prontas para tentar cavar um buraco no cimento duro da parede se fosse preciso com as mãos nuas. O vulto não se mechia, estava imóvel, até um de seus braços fazer um pequeno movimento para suas costas, e de lá voltar com uma grande faca, cromada e brilhante. Seu cabo era todo trabalhado com desenhos e formas sem significado nenhum para nós.

 

Voltou com seu braço à frente, apoiando a faca de ponta para baixo sobre sua cocha e ficou novamente imóvel nos observando. Assim que revelou sua navalha, as respirações ocorriam de forma forçada, descontrolada e desesperada, fazendo com que uma das duas mulheres presentes começasse a chorar. Aquela estranha pessoa fixou seu olhar na desesperado mulher, e ela, percebendo, começou a chorar mais forte e pedir – por favor não, não, não, não – como se soubesse o que viria a seguir. Aliás, acho que todos já sabiam o que iria acontecer. Ele começou a caminhar lentamente em direção a ela, e na mesma proporção em que ele se aproximava, todos se afastavam, divididos a dois cantos opostos. Ele parou bem à frente dela, fazendo com que caísse ao chão suplicando de joelhos sem dizer mais nenhuma palavra, deixando apenas suas lágrimas como um pedido de misericórdia. A terrível falta de esperança e incontrolável desespero fazia sua mente sucumbir ao poder daquela estranha presença.

 

Após um minuto imóvel, apenas observando o desespero aumentar, pegou a cabeça dela pelos cabelos com a mão esquerda, e com a direita passou sua lâmina em seu pescoço, esguichando sangue por toda a parede que estava atrás dela. Nesse momento todos começaram a chorar e entrar em desespero, a não ser eu, que consegui perceber o que ele queria. Ele se alimentava do medo das pessoas.

 

A cada passo que ele dava, as pessoas tentavam fugir, mas um por um ele foi pegando, dilacerando e tornando pedacinhos de todos eles, numa mórbida e nojenta carnificina que durou mais de uma hora. Seu prazer era matar com muita paciência, torturando e dilacerando aos poucos para que a dor seja mais forte que a morte. Fiquei parado, encostado a uma parede apenas assistindo, sem demonstrar e sentir medo, pois era isso o que ele queria. Não sei como podia sentir aquilo, apenas estava sentindo. O inominável ser da sala branca havia percebido meu entendimento e controle da situação, então começou a pegar pedaços de corpos trazendo até minha frente cortando-os em muitas mais fatias, arrancando pedaços, mas consegui me manter até certo grau calmo, e isso o irritou muito. Apenas uma grande vontade de vomitar estava quase se fazendo verdade, mas consegui ser forte também. Foi quando minha visão escureceu e acordei no meio do mato em algum lugar.

 

Sem noção e sem idéia de onde eu estava comecei a sentir medo. Eu havia morrido?

 

O barulho de grilos e bichos do mato eram o que me fazia companhia naquele lugar gélido e que me fazia sentir totalmente desprotegido, quando em um segundo todos aqueles pequenos ruídos cessaram-se. Alguns segundos em silêncio passaram-se quando escutei passos de vários lugares me cercando. Olhava em volta mas não via nada. Era desesperador, como se algo invisível estive me cercando. Não enxergava nada, noite muito escura, devia ser madrugada já quando os passos silenciaram-se, e ao olhar para trás ele estava ali, vindo em minha direção, agora sem piedade. Era como uma caçada. Tinha minhas chances, e ele queria minha morte. Comecei a fugir desesperadamente. O mato me atrapalhava. Na primeira vez, ao olhar para trás ele já não estava mais lá, apenas os ruídos dos passos apressados em minha direção, como se apenas uma força do mal, um fantasma corresse atrás de mim.

 

Passei por uma parte onde havia sangue espalhado por cima do verde, e consegui enxergar vários pés de prováveis corpos ali jogados, mas não saberia de quem era, a não ser um deles, que havia reconhecido, o da primeira mulher que morreu na sala da escuridão. Lembro-me de que quando ele iria passar a faca em seu pescoço e não tive coragem de olhar para o rosto daquela mulher, então fixei meus olhos em seus pés, calçados com sapatos sociais preto, parecendo ser uma executiva de grandes negócios. Continuei correndo, e meu desespero aumentava, fazendo assim com que as forças dele aumentassem. Corria com todas as minhas forças, até se esgotarem totalmente, fazendo-me cair no chão. Os ruídos haviam desaparecidos, não haviam grilos, não havia ruídos de passos nem qualquer outro barulho sequer. Notei que ao meu lado um caderno estava presente. Assim que o toquei pude perceber o som da natureza se manifestar novamente. Quando terminei de escrever, uma sombra, mesmo naquela escuridão, percebi um vulto que estava atrás de mim.“

Fim da parte 1 de 3

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