A Gruta das Cabeças

Estava chovendo. Durante a noite na estrada o tempo parece não passar, principalmente sozinho. Antunes estava viajando para outra cidade, muito longe de sua casa para uma reunião com um cliente de sua empresa. De acordo com seu mapa a direção que teria de tomar ficava rumo à altas montanhas e além. As estradas neste lugar eram rodeadas por árvores, numa estrada de mão dupla muito estreita e sem acostamento.

A chuva era forte e quase não se enxergava sob a água, mas Antunes já estava impaciente e sem paciência, correndo mais do que devia. Durante uma das curvas a fita de seu tape enroscou e ele abaixou para ver o que havia acontecido, quando de repente …. a música voltou, em seu melhor estilo. Agora no lado B escutava Black Sabbath. Quando finalmente resolveu relaxar um pouco, ele freou bruscamente, pois havia uma árvore caída na estrada. Seu carro derrapou e foi parar à beira de um precipício em um dos lados da estrada. O carro parou e Antunes ainda meio desorientado tentou concentrar-se para raciocinar o que havia acontecido. Quando se deu conta, olhando pela janela, percebeu que seu carro estava a meio fio de cair precipício abaixo. Lentamente, sem movimentos bruscos tirou o cinto de segurança, abriu a porta e desceu num pulo se jogando contra o chão. Neste mesmo instante seu carro mergulhou no abismo.

Agora ele estava sozinho, no escuro, com uma chuva muita intensa caindo sob sua cabeça, sem rumo ou direção. Sua única saída foi caminhar rumo ao sentido que estava indo, na esperança de encontrar alguém que poderia ajudá-lo.

Parecia ter se passado horas, mas então olhando para seu rolex dourado, que agora contava com uma linda trinca de fora a fora no visor que protegia os ponteiros, ele viu que não haviam se passado mais de 27 minutos. Enquanto olhava seu relógio, Antunes tropeçou em algo que estava na beira da pista e caiu. Sem olhar o que era, ele avistou uma trilha em direção ao centro da floresta. Muito longe dali ele pôde avistar um ponto de luz. Mal sabia ele o que lhe esperava, pois a cabeça envolta por cabelos negros em que ele tropeçou, fazia parte de uma coleção de alguém muito sinistro.

Foram mais cerca de 14 minutos caminhando pela trilha, quando algo atravessou alguns metros à sua frente cruzando as duas laterais e sumindo no meio da mata. Mas com aquela chuva, Antunes pensou talvez não estar vendo as coisas corretamente, e continuou sem dar atenção a este fato.

A luz estava perto, e quando finalmente chegou onde pensava em talvez encontrar uma cabana com uma família passando férias, encontrou um vasto local desmatado com uma enorme fogueira acesa, coberta por grandes folhas de bananeiras protegendo o fogo da chuva. Agora a chuva já estava cessando e ele continuou na mesma trilha que continuava por detrás da fogueira.

O caminho o levou até uma gruta, com uma entrada aproximandamente do tamanho de uma porta simples, e lá podia escutar muitos tipos de ruídos, como marteladas, batidas, coisas sendo arrastadas, galhos se quebrando, e por isso resolveu entrar, em busca de ajuda.

A entrada era estreita, como um corredor muito comprido, sendo iluminada por algumas tochas suspensas na parede. Ele não estava gostando muito deste clima pois já estava sentindo cala-frios. Pensou em voltar, mas logo nos primeiros passos Antunes escutou gritos de uma mulher vindos lá de dentro. Não pensou duas vezes. Correu ferozmente em direção ao centro da gruta, procurando aquela mulher que provavelmente estava em perigo. Conforme corria, ele sentia um pequeno cheiro que lhe calsava mal estar.

Chegou ao final do corredor e encontrou uma escadas feita de madeira, na qual desceu como uma rampa, quase tropeçando em seus próprios pés.

Ele paralisa. Se choque com a cena em que se depara. Uma enorme câmara, provavelmente cerca de uns 90 metros abaixo da terra, com uma grande coleção de cabeças mumificadas e ordenadas em prateleiras improvisadas de bambu. Algumas penduradas em cordas pelo cabelo e outras ainda frescas cravadas em estacas verticais que brotavam do chão. O cheiro de podridão estava sufocando Antunes, que já não sabia o que fazer.

Durante os segundos em que esteve parado, Antunes não percebeu uma prença na porta pela qual acabara de entrar, essa que acabou de se fechar. Ele correu desesperadamente em direção à porta, mas sem sucesso ao tentar abrí-la. Enquanto batia e esmurrava a porta gritando sem parar, um gás verde começou a vazar para dentro da câmara fazendo com que em poucos instantes Antunes apagasse.

Ele acordou preso a uma espécia de cama de pedra, como aqueles locais em que são feitos rituais aos deuses. Mas aquilo não seria nenhum ritual e sim apenas mais um item para a coleção que precisava apenas ser retirado.

Ele estava acordado quando, preso pelas mãos e pés, imobilizado, quando aquilo que o pegou apareceu para ele. Era uma mulher, como uma bruxa. Seu rosto enrugado, nariz pontudo, cabelos marrons que cobriam levemente até suas boxexas, rupoas acinzentadas, velhas e rasgadas, com olhar de triunfo e vitória sob seu prêmio. Ela caminhou em sua direção começando a gargalhar, agachando-se para pegar algo. Eram pedras esculpidas em forma de faca, ou algum instrumento parecido. Ela começo a desferir golpes no pescoço, tirando de Antunes um profundo grito de dor e agonia, que ecoaria por muitos kilômetros se não estivessem naquela câmara escura embaixo da terra. Seu grito começou a ser abafado pelo sangue que agora corria por sua garganta, e logo após suas artérias esguicharem sangue na cabeça daquela bruxa Antunes morre.

Longe dali em sua cidade natal, niguém se dá conta de seu desaparecimento. Antunes era uma pessoa sozinha, obcecada por trabalho, sem amigos e objetivos, talvez por isso sua cabeça agora passe a valer alguma coisa. Mesmo que sob uma estante de bambu empalhada e jogada aos vermes.

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